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Domingo, 12 de Abril de 2009

Exato, preciso e verdadeiro, mas nem por isso literal.

A tese aqui é que nem tudo que é exato, preciso e verdadeiro, é literal.

Essa é uma fonte permanente de confusão e conflitos até mesmo entre homens e mulheres de boa-vontade, de modo que vale a pena desenvolver o assunto.

Todos tendemos a partir do pressuposto de que se um discurso descreve com exatidão e precisão um fenômeno, e que essa precisão e exatidão tornam todos os enunciados logicamente verdadeiros, então devemos interpretar esse discurso em sua literalidade, sem nada acrescentar ou retirar ao sentido.

Uma conseqüência inevitável dessa falácia de raciocínio é concluir que, se um discurso não pode ser interpretado literalmente, então ele é falso, necessariamente impreciso e inexato. Daí tantas discussões estéreis em torno de filigranas do discurso.

Bobagem.

Vamos imaginar que, de posse de uma máquina do tempo, pudéssemos seqüestrar do passado até nosso tempo pessoas de inteligência reconhecidamente extraordinária. Digamos, Aristóteles, Issac Newton, René Descartes. Estando sob nosso poder, poderíamos obrigá-los a escrever uma descrição detalhada, em sua própria linguagem, de um Computador Pessoal como esse que você está usando para ler esta blogagem. Ou de um avião a jato, um aparelho de DVD, um automóvel, um iPod, um GPS, um celular 3G, um satélite de telecomunicações, qualquer realização tecnológica de nosso tempo.

Logicamente, para que o exercício fosse perfeito, não explicaríamos nada a esses vultos históricos que deram origem a toda a Ciência ocidental. Simplesmente deixaríamos que eles nos observassem usando essas traquitanas tecnológicas e exigiríamos deles que descrevessem o que viram.

Você tem alguma dúvida de que as descrições feitas em linguagem de seu próprio tempo das coisas de nosso tempo, sendo realizadas por esses gênios, seriam, simultaneamente (1) exatas, (2) precisas, (3) verdadeiras e (4) absolutamente não literais???

Saindo do terreno da especulação histórica, vamos à nossa realidade cotidiana.

Dizemos, de forma muito exata, precisa e verdadeira, que um mais um é igual a dois. 1+1=2.

O que diabos isso quer dizer, literalmente?

Nada em especial. Uma unidade de uma coisa inespecífica, quando se une a outra unidade dessa mesma coisa inespecífica resulta em duas unidades dessa coisa inespecífica.

Quando você diz que 1+1=2, você não está dizendo que uma laranja mais uma laranja é igual a duas laranjas, ou duas frutas, ou qualquer outra coisa que você possa interpretar ao pé da letra.

Inclusive porque, ao pé da letra, um mais um é igual a qualquer valor.

  • Um homem mais uma mulher é igual a um casal. 1+1=1, Verdadeiro.
  • Um homem mais uma mulher é igual a duas pessoas solteiras a menos. 1 + 1 = -2, Verdadeiro.
  • Um casal mais um filho é igual a 3 pessoas. 1+1=3, Verdadeiro.
  • Um litro de gasolina mais um fósforo aceso é igual a um posto de gasolina desaparecido em um incêndio, com 28 mortos. 1+1=0 (adeus posto de gasolina) e 1+1= -28 (28 contribuintes a menos para o governo) 1+1=28 (por outro lado, 28 mortos representam 28 funerais) e 1+1= -1 (um posto de gasolina a menos para você abastecer seu carro). Veja como todos os enunciados são Verdadeiros ao mesmo tempo (ih, cadê o princípio da não contradição???).
  • Uma China mais uma Índia dá mais de 2 bilhões de seres humanos. 1 + 1 > 2.000.000.000, Verdadeiro.
Fica claro, então, porque a matemática é exata, precisa e verdadeira mas nem por isso deve ser levada ao pé da letra.

Vamos nos entender agora sobre a Filosofia, a Religião e a Política.